Pedro Rosa Mendes, Alain Corbel. Lenin Oil. Lisboa, Portugal: Dom Quixote, 2006. 157 pp. ISBN 978-972-20-3133-2.
Reviewed by Augusto Nascimento (Instituto de Investigação Científica Tropical, Lisboa)
Published on H-Luso-Africa (November, 2014)
Commissioned by Philip J. Havik (Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT))
A pretexto de um livro ...
Depois dos livros de Mário Cláudio, Orion, e de Sousa Tavares, Equador, de novo o arquipélago sugere um romance, neste caso, apegado a uma realidade adivinhada. A trama não é nem a historicizada por Sousa Tavares nem a imaginada por Mário Cláudio, é, antes, algo de observável na decrepitude do cenário que vem a impregnar as pessoas.
O livro Lenin Oil é um romance curto, que, ao invés de se centrar numa vida pessoal, foca o presente momento do arquipélago. A acção--ou, se quisermos, os sonhos--decorre nos dias de hoje. Não há um herói, antes existem várias personagens cujo destino se cruza de forma fugaz na ilha por causa do petróleo. O visitante americano avalia e descreve para o seu país a viabilidade, a oportunidade, as vantagens políticas da exploração petrolífera off shore. Enquanto isso, é assaltado pelos fantasmas de uma ilha com o que seu quê de maldição. O que o americano traz não representa senão motivos acrescidos para prolongar a maldição da ilha. Lenine, um são-tomense procura a ascensão social nas oportunidades supostamente oferecidas pelo petróleo. Para isso, insinua-se e oferece consultoria, afinal de contas, resumida à sua condição de cidadão nacional. Por isso, Lenine evoca a herança da escravatura inscrita na sua condição e no seu corpo, procurando um resgate dessa condição através da participação na indústria petrolífera e da ascensão económica. Os diálogos de ambos condensam possíveis leituras da história do arquipélago e da etnogénese dos são-tomenses.
Também personagens da política do pós-independência são retratadas (os ex-presidentes Pinto da Costa e Miguel Trovoada, além do actual Fradique de Menezes). Concretamente, imagina-se uma conspiração que o actual presidente debela (na realidade, já enfrentou uma tentativa de golpe em 2003). Mas, numa ilha, esta descrição de uma conspiração abortada contra o actual presidente são-tomense parece menos relevante do que a chamada de atenção para o que de muito importante para o mundo e para os são-tomenses está em jogo na sua ilha.
Apesar de ser um romance, Lenin Oil destila poesia e, todavia, os laivos de realismo hegemonizam-no. Sem tréguas, a realidade torna-se por demais evidente para o leitor cuja familiaridade com São Tomé vá para além das estadas turísticas. Com efeito, quem conhecer a ilha espantar-se-á com a sensibilidade na descrição de pequenos pormenores do ambiente físico e social, que o autor realça para incutir um certo sentimento de perdição.
Por entre a subjectividade que explora poeticamente as percepções sensoriais e as verdades desdobráveis do íntimo dos homens, há uma trama do mundo a ocorrer na ilha. Por isso, coexistem dois registos, um, poético, intimista e fantástico, amargamente lúcido e irónico. Outro, mais analítico, que convoca anotações antropológicas e ilações históricas, é cru e cínico, diria, político. Este fala-nos de uma história já vista e, não obstante, como que inelutavelmente repetida.
Como se a beleza natural tivesse de pagar um tributo, os temas de assombração dos são-tomenses estão presentes, a saber, a doença, o pântano, a condenação ... teluricamente determinada? Os são-tomenses parecem reféns de um fundo negro da natureza e das profundidades da história da sua ilha. Acerca desta, os de fora, quando cândidos, dizem apenas ser bela. Outros, afectados de "conjuntivite moral," quererão extorquir as suas riquezas em prejuízo dos seus donos, os ilhéus.
No tocante aos são-tomenses, arriscaria dizer que, no tempo do regime monopartidário, a sua crítica corrosiva, à boca pequena, ao curso da vida continha um fundo optimista: a terra e as gentes eram boas, apenas passavam por uma provação devido à credulidade ingénua da época da independência. Ainda assim, porque o absurdo se localizava fora do seu íntimo, remanescia a crença numa futura redenção que os haveria de pôr de bem consigo mesmos. Ora, o drama sobreveio em toda a sua plenitude quando a implementação do multipartidarismo desvendou um fundo das almas que, de forma algo inesperada, parece apenas alimentar a descrença, "o mito e o rancor" (p. 42) que tal paraíso pode pôr os homens tão mal consigo mesmos? Porque é que a história recente vem corroendo a afabilidade dos ilhéus, a qual, ainda assim, teima em resistir?
São os seguintes os termos da equação que inquieta os que se debruçam sobre São Tomé: acreditamos na mudança social ou depararemos sempre com os mesmos homens que, sem horizonte para além de si próprios, persistirão em revelar as falhas da natureza humana?
Aos são-tomenses pouco ajuda terem por álibi o desempenho dos colonialistas. Servirá de muito culparem toda a corja de degenerados que, descarregados no arquipélago, compuseram a carga genética dos seus habitantes?
Voltando ao livro, sugere especulação e discussão sobre a natureza humana num tal contexto de perdição, o mesmo é dizer nas teias da história daquele microcosmo insular. O livro encerra com a narração de um golpe não sucedido (mas que é possível e que encontra uma metáfora certeira nos alinhamentos e solidariedades patentes na recente disputa da cadeira presidencial). No caso, a factualidade importa menos do que os sentimentos inscritos nos homens, uma espécie de determinismo que os manieta nas suas vidas numa Ilha onde "onde não há espaço para o acaso" (p. 29).
A aparente raiz telúrica e o peso da insularidade (as "distâncias quotidianas não ultrapassam medidas pedestres," p. 30), conjugados com os investimentos globais numa tal "pulga de floresta" plantada num lodoso mar de petróleo, esvaziam uma discussão em termos neo-colonialistas grosseiros. Mas, se já não cabe rebater estafadas teses de inferioridade racial e social, nem por isso a vida e o futuro são menos inquietantes. Trata-se, se for o caso, de encontrar uma saída num meio pantanoso que corrompe o ser humano.
Pedro Rosa Mendes mostra-se cruamente pessimista e dificilmente se adivinharão razões para o contrariar. Não é a beleza da terra que decide a conduta dos homens. O que condiciona os homens será, porventura, a degradação do meio físico e social, patente, por exemplo, na porta desengonçada da entrada para uma carcaça de um batelão apodrecido e encalhado na baía da cidade, um pobre refúgio de náufragos da vida ... As ilustrações de Alain Corbel, com traços de realismo pesado, marcadas pelo verde que, em várias delas, se adensa e se torna plúmbeo, como o céu da gravana, ajudam a fazer deste livro um objecto belo. Como, em todo o caso, a ilha.
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Citation:
Augusto Nascimento. Review of Mendes, Pedro Rosa; Corbel, Alain, Lenin Oil.
H-Luso-Africa, H-Net Reviews.
November, 2014.
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