Jean-Yves Loude. Lisboa na Cidade Negra. Lisbon: Dom Quixote, 2005. 275 pp. EUR 18.50 (paper), ISBN 978-972-20-2818-9.
Reviewed by Marzia Grassi
Published on H-Luso-Africa (July, 2010)
Commissioned by Philip J. Havik (Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT))
Curso de língua portuguesa versão Maria Rebelde
O livro de Jean-Yves Loude é um relato muito apaixonado sobre Lisboa e a influência africana na cidade apresentado através de testemunhas que o autor encontra e descreve nos cantos, nas ruas e nos monumentos da cidade. A presença africana em Lisboa é uma circunstância antiga, inscrita na história portuguesa, e não um fenómeno recente, como acontece na maioria das outras capitais europeias da contemporaneidade, que, desde os anos 90 do século passado, se tornaram portos de chegada de grandes fluxos imigratórios de origem africana.
O etnólogo e escritor francês, autor desta obra, é um especialista relativamente a Cabo Verde, lugar onde viveu e realizou a sua pesquisa durante longos períodos. E é, sem dúvida, esta sua vivência no arquipélago que explica a sensibilidade através da qual, ao longo de todo o livro, ele procura, encontra e reconhece África em Portugal. A presença de grupos africanos em Lisboa remonta ao século XV, uma presença de cinco séculos. Como Loude recorda, “nos séculos XVI e XVII, a cidade já contava com cerca de dez porcento de negros,” sendo que a presença africana em Lisboa estava ligada ao recurso permanente a escravos, no sentido de efectuar os trabalhos mais duros da vida quotidiana, na cidade (p. 33). Sugere-se que esta presença, que, sobretudo devido à diminuição da escravatura, sofreu um decréscimo no século XIX, terá necessariamente influenciado a construção da identidade lisboeta, uma vez que os negros participavam em todas as actividades laborais e lúdicas.
A presença dos africanos em Lisboa é uma realidade cuja visibilidade não é imediata, verificando-se a tendência, segundo este autor, para um desvio das questões da presença negra na cidade portuguesa para os lugares e bairros de residência daquele que constitui o grupo de imigrantes mais numeroso da cidade, os cabo-verdianos. Nas palavras do autor, “Lisboa é uma cidade hábil em fintar a realidade, propícia a devaneios” (p. 18). A maioria das investigações académicas e dos textos literários e de crónicas sobre a etnicidade e a presença negra em Portugal são, de facto, levadas a cabo nos bairros marcados por grande presença de cabo-verdianos da diáspora. Fora destes lugares estabelecidos, a visibilidade das raízes africanas da cidade de Lisboa revela-se numa presença furtiva que Loude tem o mérito de, neste livro, tornar visível, num registo oposto ao de Tanner que, em 1983, apresentou Lisboa como a “cidade branca.” Por exemplo, pelo recurso à figura duma mulher negra--que, num restaurante do Parque Mayer o autor reconhece como sendo de Cabo Verde, essencialmente por “arrastar os pés, com aquela lentidão das ilhas que nenhum vento urbano consegue contrariar” ou através da descrição do dia-a-dia dos homens e mulheres que habitam o “bairro tradicionalmente cabo-verdiano” de São Bento (p. 22).
Chegado a Portugal desde África, Loude procura assim investigar o que, da relação entre África e Portugal, ainda existe na construção identitária portuguesa. Este país foi destino da rota dos escravos que, até ao século XVIII, antes de tomar a direcção do Brasil ou das Antilhas, atravessou os mercados florescentes da Península Ibérica, participando e influenciando a edificação da sociedade portuguesa. Como o autor relata, “foi em 1441 que os primeiros negros chegaram a Portugal. Tinham sido capturados por dois navegadores Antão Gonçalves e Nuno Tristão, e foram oferecidos de presente ao infante D. Henrique” (p. 36). E, desde então, a presença negra em Lisboa tem continuado, com características e intensidades diferentes, nas diferentes épocas históricas, marcando a identidade portuguesa como uma identidade crioula.
Além do recurso à história, o autor recorre também a testemunhos, reflexões e entrevistas, utilizadas de forma trivial, que facilitam a compreensão do objecto de estudo, compondo assim uma obra que se situa entre o trabalho científico e a literatura. É uma espécie de guia que leva o leitor a passear pelas raízes negras da cidade, um “romance de investigação”--como o próprio autor o define, numa entrevista--um casamento feliz entre um trabalho académico e a ficção literária, que satisfaz a exigência de divulgação do seu trabalho científico ao grande público. Maria Rebelde é a personagem, o pretexto cuja busca nos acompanha desde as primeiras páginas. É uma actriz mestiça que, num curso de língua para estrangeiros, pretende divulgar a história do encontro forçado entre África e Portugal, de onde se sente originária--e que desaparece quando é impedida de o fazer, pela necessidade de dar espaço à versão oficial dos Descobrimentos, repleta de grandeza e nostalgia após a queda do império. É ela que acredita que “o facto de terem grilhetas nos pés não impedia aos escravos de abrir os olhos para a sociedade que lhes retirava a liberdade,” e que o autor finalmente encontra no elevador da Associação de Cabo Verde, “graças ao jogo ambíguo do acaso” (pp. 41, 171).
Maria Rebelde dá ao autor uma lição, cheia de emoção, sobre as leis pombalinas que puseram fim à prática da escravatura em Portugal e sobre a psicose da mestiçagem, bem como do horror em relação à falta de “pureza” das origens, factor dominante no pensamento da época em Lisboa. A razão pragmática que estava na origem das leis pombalinas prendia-se com o objectivo e a necessidade de modernização do Estado após o terramoto de 1755. Isto podia ser feito através do desenvolvimento do frágil tecido industrial, carente de uma mão-de-obra livre e qualificada (substituição da escravatura pelo Trabalho e pelo Estudo). Maria Rebelde está “contra todos, sobretudo contra Portugal e contra os colonizadores” (p. 175). É esta personagem que dá voz ao problema da integração dos negros em Portugal, às questões teóricas relacionadas com as migrações originárias dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) em Portugal. A complexidade está inscrita na história das dinâmicas de integração/assimilação/exclusão identitária que procede do século XV. Mas a Maria Rebelde não é a única personagem que intriga o leitor. É, isso sim, a personagem chave, aquela que põe o autor em contacto com outras, aquelas imortalizadas nos monumentos, nas lembranças das pessoas ou na literatura portuguesa, através das quais, tal como num filme de Pedro Costa, o autor descreve a identidade portuguesa em Lisboa “de cabo a rabo” (p. 235).
O mérito desta obra não é só o de devolver à presença negra em Lisboa o lugar que está gravado na história, mas sobretudo aquele de oferecer uma descrição profunda da cultura africana em Lisboa, que convive com todos os que vivem na cidade e nela trabalham e se recreiam, aludindo a uma imagem sugestiva do multiculturalismo e da complexidade identitária, e inscrevendo-a na essência do Portugal contemporâneo. É um relato de viagem, um pouco à maneira dos relatos através dos quais, noutros tempos, os “descobridores” viajantes nos deram a conhecer povos desconhecidos e diferentes que, por sua vez, nos “descobriram.” Trata-se, recorrendo a uma hábil fusão com a literatura, de uma forma eficaz de tornar públicos os resultados da investigação científica, não deixando de ser também um esplêndido guia de Lisboa, cidade “crioula.”
Brassalino, um jornalista originário de São Tomé, apaixonado por Angola por ser “um espaço imenso,” que denuncia a atitude paternalista dos portugueses perante os imigrantes e os negros em geral, é o último testemunho que o autor escolhe para se pronunciar sobre a presença africana em Lisboa. Não me parece inadequado terminar esta recensão com as suas palavras: “Lisboa convém aos africanos. Não é rigorosa, é um bocado sorna. Há, é claro, a tristeza endémica, o conservadorismo do ambiente, a antipatia cultivada pelos lisboetas no sentido de se mostrarem desagradáveis, não respondendo aos cumprimentos, por exemplo. E apesar disso os africanos adaptam-se. Porquê? Porque o dinamismo das outras cidades ocidentais lhes retira toda a energia, destruindo-lhes a personalidade. Aqui as pessoas conseguem traçar o seu caminho.... Adquire-se, como em qualquer outro lado, a deformação dos valores artificiais do consumo, mas pode-se, como em mais nenhuma outra parte, continuar a viver como lá na terra, estilo terceiro mundo. Lisboa é uma etapa importante entre África e Ocidente, uma ponte, uma transição” (p. 247).
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Citation:
Marzia Grassi. Review of Loude, Jean-Yves, Lisboa na Cidade Negra.
H-Luso-Africa, H-Net Reviews.
July, 2010.
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