Neusa Maria Mendes de Gusmão. Os Filhos de África em Portugal: Antropologia, multiculturalidade e educação. Lisbon: Imprensa de Ciências Sociais, 2004. 361 pp. EUR 25.20 (paper), ISBN 978-972-671-131-5.
Reviewed by Marzia Grassi
Published on H-Luso-Africa (June, 2010)
Commissioned by Philip J. Havik (Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT))
A modernização da exclusão social
O livro é o resultado da tese de doutoramento de Neusa Maria Mendes de Gusmão, a antropóloga brasileira, investigadora e professora da faculdade de educação da UNICAMP (Universidade Estadual de Campinas) de São Paulo. Trata-se de uma pesquisa muito interessante sobre os imigrantes originários dos PALOP (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa) em Portugal e os seus filhos. O contexto escolhido pela autora é a cidade de Lisboa e a discussão teórica explora a possibilidade de existirem, na sociedade portuguesa, mecanismos peculiares na construção identitária--individual e colectiva--que explicam a presença negra em Portugal. A autora questiona-se quanto ao significado de ser português ou africano em terras lusas, e, ao longo do seu trabalho, discute as características da identidade portuguesa de imigração, as suas auto-percepções e as suas atribuições, quer nos indivíduos oriundos das ex colónias, quer nos seus filhos, nascidos em Portugal ou saídos das terras africanas na infância. O caso da chamada “segunda geração” de imigrantes, mostra com evidência o sobressair da condição étnica como elemento diferenciador, que a autora explora ao longo de todo o trabalho, como uma condição privilegiada para a percepção das dinâmicas dos conflitos.
Gusmão mostra no seu livro como a condição étnica é vivenciada pelos jovens no meio em que estão inseridos, discutindo esta questão em dois lugares de socialização, a escola e o bairro. Utilizando uma metodologia de observação directa dos contextos e de entrevistas aos jovens, protagonistas do estudo, e aos observadores privilegiados, a autora mostra a escola e o bairro como os lugares mais importantes, os contextos onde a socialização dos jovens depende da capacidade de negociação identitária que eles conseguem no contacto com o “outro” português.
O livro é dividido em sete capítulos. No primeiro, a autora discute os conceitos que sustentam a sua análise. O conceito antropológico do “outro” lembra a importância da diversidade e da alteridade, o que faz com que surjam categorias de análise indicativas de peculiaridades relativas aos legados culturais e históricos que existem entre Portugal e as ex colónias portuguesas (PALOP). A diversidade é discutida na relação entre colonizados e imigrantes de uma forma que revela uma densa capacidade de adaptação ao contexto estudado dos mesmos. Os temas centrais do livro--as relações de Portugal com as suas ex-colónias--são, neste capítulo, discutidos lembrando que a questão da alteridade é base da ciência antropológica, a qual inclui o antropólogo como sujeito da reflexão sobre as sociedades social e culturalmente diferentes. A questão complica-se quando se analisam os padrões universais da educação, a heterogeneidade da formação, da história, das culturas e a educação tende a diferenciar-se perante as imposições do mundo europeu. É aqui que a autora situa o papel da escola como fundamental para mover o processo educativo no sentido da promoção de possibilidades efectivas de formação perante a diversidade social dos imigrantes de origem africana.
No capítulo dois, apresenta uma discussão sobre o multiculturalismo. A autora fala de África e de Portugal como sociedades multiculturais que partilham “identidades cruzadas e rompidas,” as quais complexificam a gestão das identidades dos imigrantes originários das ex-colónias e o “estranhamento” do “outro.” Nas palavras da autora: “Portugal é uma sociedade plural ... sempre foi ... O desafio para o português ‘luso’--está em que o estranhamento desse outro tão diferente de sua própria imagem no espelho, aparentemente distante, lhe é igualmente próximo” (p. 116).
No terceiro capítulo, passa-se à cidade de Lisboa, aos seus bairros africanos e à vida que neles se desenvolve para os jovens de origem africana. Nos capítulos quarto e quinto escolhe-se um bairro da grande Lisboa e uma escola primária para situar as vivências e as experiencias dos actores, crianças e jovens. Os numerosos testemunhos das dificuldades, das tensões vividas e das representações, mostram as dificuldades de inserção, de um ponto de vista cultural, dos jovens e das crianças nos processos homogeneizadores presentes nas políticas educacionais europeias.
O bairro escolhido, durante o trabalho de campo da autora, e obedecendo às políticas habitacionais, sofre o realojamento. É o fim do bairro e o início do realojamento dos seus habitantes, o qual, no princípio do capítulo seis, nos é relatado pela autora mediante artigos de jornais e história do programa especial de realojamento, da câmara de Lisboa, mas também recorrendo às vozes dos protagonistas deste processo, que contam o seu lado da história. Esta é na opinião da autora uma história de exclusão e de dificuldades que este tipo de política não resolve, mas transfere no patamar da modernização da exclusão social que os habitantes do bairro sofrem ao nível dos afectos, da vida quotidiana, do hábito, do afastamento dos amigos, e nas resistências e na violência que o processo traz consigo.
O realojamento do próprio “terreno” de pesquisa é ocasião para a autora apresentar uma discussão informada sobre as políticas multiculturais que são analisadas em termos de política sociais propostas pela União Europeia, destacando, no caso português, a política de habitação e a política educacional, ambas, na opinião da autora, preocupadas fundamentalmente, mais que com a inserção social dos imigrantes, com o controlo dos fluxos migratórios.
As conclusões discutem as fronteiras étnicas no campo da educação e da antropologia. A leitura da imigração africana para Portugal como um fenómeno “lusófono,” abordagem que a autora propõe ao longo de todo o texto, tem o risco de inibir a compreensão dos efeitos comuns, os quais, em análise deste fenómeno, por exemplo, em termos comparativos com outros imigrantes, poderiam beneficiar a compreensão da realidade multicultural do Portugal contemporâneo enquanto país europeu.
O livro representa um contributo indiscutível para a compreensão das ligações que existem de um ponto de vista identitário entre Portugal e os países africanos de língua oficial portuguesa. É verdade que a história da colonização (e descolonização) portuguesa pode ser considerada peculiar no contexto das independências das outras ex colónias europeias em África, quer por timing, quer pelas circunstâncias políticas da ex madre pátria. Mas também é verdade que insistir sobre a exclusividade portuguesa em relação ao contacto com o continente africano não beneficia particularmente os estudos sobre as realidades urbanas multiculturais por força dos fluxos migratórios que, a partir da década de 90 do século passado, atingiram o protagonismo nas dinâmicas de diversidade cultural nas cidades europeias contemporâneas. Talvez tenha chegado o momento de insistir de forma exclusiva sobre a especificidade da imigração africana para Portugal como difusor de legados culturais e herança identitária, elementos esses que não terão grande utilidade analítica se não forem acompanhados de uma procura das igualdades e das sinergias entre culturas. O debate teórico e político sobre multiculturalismo poderá, por exemplo, beneficiar de estudos comparativos entre comunidades de origem diferente, de forma a situar o debate académico e político, atribuindo-se assim o justo lugar aos actores sociais “imigrantes” no contexto social das sociedades europeias contemporâneas das quais fazem parte de forma imprescindível. O sentimento de pertença identitária dos indivíduos é evidentemente inscrito na história que o constrói, mas esta não terá lugar exclusivo neste processo.
O livro tem o mérito de mostrar a essência política do debate sobre o multiculturalismo na Europa contemporânea. Na página 323, intervindo no debate dos anos 60 do séc. XX sobre a educação multicultural e a interculturalidade, a autora conclui que a história particular de Portugal como ex madre pátria no contexto europeu, revela uma dimensão geral do processo migratório contemporâneo, para a Europa, que viabiliza um espaço académico cheio de “possibilidades e potencialidades de uma antropologia da educação” (p. 343).
Contudo, e para concluir esta recensão, este mesmo espaço académico poderá ser melhor preenchido através do diálogo dinâmico entre disciplinas, sem dúvida mais rico e mais eficaz no estudo da complexidade da sociedade actual, multidimensional e multicultural, que qualquer abordagem exclusivamente disciplinar.
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Citation:
Marzia Grassi. Review of Gusmão, Neusa Maria Mendes de, Os Filhos de África em Portugal: Antropologia, multiculturalidade e educação.
H-Luso-Africa, H-Net Reviews.
June, 2010.
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